07 abril 2018

Colunismo de segunda categoria


O grande Zuenir torna-se um hater da Globo
Luis Nassif, no Jornal GGN

Nas redes sociais, um agente das batalhas opinativas são os haters, perfis com maior ou menor influência, incumbidos de estimular o senso comum nas discussões em curso. Isto é, transformar discussões em bate-bocas acessíveis ao universo das boiadas que seguem os condutores.
O diferencial da mídia seria ir além desse jogo de impressionismos, trazendo argumentos, ângulos novos, em uma direção ou outra, mas colocando-se acima desse populismo de Facebook.
O que está ocorrendo é o contrário, com colunistas assumindo o papel de haters de Internet, de chefes de torcidas tratando seus leitores como seguidores imbecis, sem discernimento.
Se alguém pretender analisar os efeitos do fenômeno dos haters na mídia, e a degradação do colunismo, o artigo de Zuenir Ventura no Globo de hoje é um clássico.
Zuenir analisa uma das mais relevantes sessões da história contemporânea do STF (Supremo Tribunal Federal), a que negou o habeas corpus a Lula.
O julgamento envolveu questões complexas, conceitos, lógica jurídica, os efeitos das pressões da mídia, as espertezas processuais, as tentativas de recorrer à erudição jurídica para defender pontos de vista políticos.
Foi uma sessão complexa, com críticas às manobras regimentais, discussões acerbas sobre o direito que tem o Supremo ou não de inventar leis, temas envolvendo a teoria do poder, o papel das instituições, o próprio conceito da democracia representativa.
O que faz nosso bravo hater?
O começo: a carteirada intelectual
“Foram quase 11 horas com apenas alguns intervalos, bem mais do que a peça de Ariane Mnouchkine “Rei do Camboja”, de oito horas, a que assisti em 1985 em Paris e que era o meu recorde de espectador. Só que o espetáculo do STF teve mais suspense, pois não se sabia o que iria acontecer com o protagonista”.
Legal. Quem assistiu Ariane Mnouchkine em 1985 em Paris, de fato, tem a métrica correta para analisar o STF em 2018 em Brasília.
A análise técnica do discurso de Gilmar, que é do outro time
“O número exótico foi apresentado por Gilmar Mendes, vindo especialmente de Lisboa, para onde voltou após votar. Deu um show de interpretação com sua retórica teatral de caras e bocas. Exaltou-se, responsabilizou os petistas pela atual intolerância e jogou pedras na Geni, que é a imprensa hoje.
Disse que nunca viu uma “mídia opressiva” como a de agora. Acusou o “Jornal Nacional” de “neopunitivismo” por querer “provar minha incoerência” , deu um esbarrão no GLOBO e fez pior com a “Folha de S.Paulo”, chamando-a de “mídia chantagista”. Queixou-se também dos que querem lhe dar lição sobre o sistema penitenciário. “É injusto ou indigno para comigo. Eu fui a Bangu e Pedrinhas, conheço esse sistema”. Ah, sim, e também votou, como esperado, a favor da concessão do habeas corpus”.
O, ah, sim!, é para explicar porque ele desancou caras e bocas de Gilmar e se eximiu de analisar o conteúdo. O “ah, sim!”, significa, ele votou a favor do HC, portanto seus argumentos não importam.
A análise percuciente do voto de Barroso, que é dos nossos
“O melhor momento foi proporcionado por Luís Roberto Barroso. Com um discurso claro, objetivo e convincente, ele deixou sem graça os que defendem o tal trânsito em julgado, ao exibir exemplos de condenados que, de recurso em recurso, passaram dez, 20 anos livres. Como “impactos devastadoramente negativos” de uma decisão proibindo a prisão após condenação em segunda instância, ele citou a impunidade de quem tem bons advogados e o descrédito do sistema penal. “Condenou-se a advocacia criminal ao papel de interpor recurso incabível atrás de recurso incabível para impedir a conclusão do processo e gerar artificialmente prescrições”.
Há uma imensa discussão sobre temas complexos, como a presunção da inocência, o significado do transitado em julgado, à luz das cláusulas pétreas. Mas nosso hater sintetizou tudo nessa frase magistral: “deixou sem graça os que defendem o tal trânsito em julgado”.  Melhor que isso, só outro jurista percuciente, Rui Castro, supondo que a expressão “freio e contrapesos” foi criada por algum engenheiro contemporâneo.
Curvou-se à erudição sábia de Rosa Weber
“Rosa Weber foi a quinta a votar, cercada da maior expectativa. Era aguardada como fiel da balança. Por cerca de uma hora fez uma apresentação técnica, hermética, coerente, sem concessões, de sua justificativa. Ela se baseou no “princípio da colegialidade”, que faz “as vozes da individualidade cederem em favor de uma voz institucional”.
Nem indague de Zuenir o que vem a ser o “princípio da colegialidade”, porque ele veio para sentir, não para entender. Um dos discursos mais atrapalhados dos últimos anos, sendo ironizado por juristas de todas as linhas, transforma-se, na opinião abalizada do nosso bacharel, em “apresentação técnica, hermética e coerente”. Vai para o trono ou não vai?
Transformou em machismo as críticas ao comportamento das Ministras mulheres.
“Por fim, é triste lamentar o comportamento de Marco Aurélio (ajudado por Levandowski), que, inconformado com a derrota, foi deselegante e descortês com Cármen Lúcia e Rosa Weber, interrompendo-as enquanto falavam, lançando farpas e distribuindo ressentimentos e queixumes.
Marco Aurélio perdeu uma boa oportunidade de se mostrar um cavalheiro com duas das mais brilhantes e serenas representantes do empoderamento feminino na Justiça”.
Deve ser a síndrome de Estocolmo. Mas causa espécie assistir dois jornalistas experientes e com história – como Zuenir e Ascânio Seleme – aceitarem o papel de haters de rede social, em um momento em que a mídia diz se diferenciar da superficialidade das redes sociais.
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